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Lula eleva o tom na ONU, cobra paz, soberania e reforma da ordem mundial

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LULA ELEVA O TOM NA ONU, COBRA PAZ, SOBERANIA E REFORMA DA ORDEM MUNDIAL
Foto: Presidente Luiz Inácio Lula da Silva 2026

Em discurso na 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas, presidente brasileiro critica a paralisia do Conselho de Segurança, defende o multilateralismo, aborda guerras, soberania, democracia, clima, inteligência artificial e desigualdade e leva o cenário eleitoral brasileiro à principal tribuna diplomática do planeta.

NOVA YORK (EUA) — O presidente Luiz Inácio Lula da Silva abriu nesta terça-feira (22) o Debate Geral da 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, com um discurso abrangente e de forte conteúdo político e diplomático, no qual apresentou a visão do governo brasileiro sobre alguns dos principais desafios enfrentados pela comunidade internacional.

Diante de representantes dos Estados-membros da ONU, Lula fez uma dura crítica à incapacidade das instituições multilaterais de responder às guerras e crises internacionais, defendeu mudanças na governança global e voltou a colocar a soberania dos países no centro de sua mensagem.

Em diferentes momentos de sua manifestação, a fala do presidente recebeu manifestações de aprovação no plenário, incluindo aplausos dos presentes.

“A CREDIBILIDADE DA ONU NUNCA ESTEVE TÃO BAIXA”

Logo no início, Lula adotou um tom crítico ao funcionamento das Nações Unidas.

Ao lembrar que esta foi a décima ocasião em que abriu o Debate Geral da Assembleia, afirmou considerar o atual cenário internacional o momento mais crítico da organização desde sua primeira participação na tribuna, em 2003.

Segundo Lula, a ONU está falhando em uma de suas missões fundamentais: impedir que a humanidade seja novamente submetida ao flagelo das guerras.

O presidente direcionou parte importante de suas críticas ao Conselho de Segurança e ao poder de veto de seus cinco membros permanentes.

Para Lula, a incapacidade de ação diante dos conflitos internacionais está associada também a uma “profunda crise de liderança”.

Em uma das frases centrais do pronunciamento, declarou:

“A guerra não é a continuação da política por outros meios. É a falência total da política.”

GAZA, ISRAEL, UCRÂNIA E ORIENTE MÉDIO

Os conflitos internacionais ocuparam espaço expressivo no discurso.

Ao tratar de Gaza, Lula voltou a utilizar o termo “genocídio” para caracterizar as ações do governo de Benjamin Netanyahu contra os palestinos, especialmente mulheres e crianças. Ao mesmo tempo, condenou os atos terroristas cometidos pelo Hamas contra civis israelenses.

O presidente também defendeu a solução de dois Estados como caminho para que israelenses e palestinos possam viver em segurança.

Sobre a guerra entre Rússia e Ucrânia, Lula sustentou que não haverá solução militar para o conflito e voltou a defender negociações diplomáticas.

“A diplomacia é a única opção”, afirmou.

“O BRASIL NÃO CABE NO QUINTAL DE NINGUÉM”

Uma das passagens de maior peso político foi dedicada à soberania brasileira e à situação da América Latina e do Caribe.

“O Brasil não cabe no quintal de ninguém”, declarou Lula.

O presidente afirmou que o país busca parceiros capazes de contribuir para uma agenda de desenvolvimento e rejeitou ingerências externas nos processos políticos dos países da região.

Ao abordar Venezuela, Nicarágua, Haiti e Cuba, Lula defendeu que o povo venezuelano determine seu próprio destino, criticou as restrições à participação da oposição nas eleições da Nicarágua, cobrou maior atuação internacional no Haiti e condenou o embargo econômico imposto a Cuba.

CRIME ORGANIZADO: COOPERAÇÃO, MAS SEM TERCEIRIZAR A SOBERANIA

Lula também levou à ONU o problema do crime organizado.

Segundo o presidente, o Brasil está preparado para enfrentar organizações criminosas e ampliar a cooperação internacional, especialmente contra lavagem de dinheiro, tráfico de drogas, circulação ilegal de armas e movimentação de recursos ilícitos.

Mas fez uma ressalva enfática:

“Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas.”

Para Lula, o combate ao crime transnacional deve ocorrer por meio de cooperação entre os países, sem que o Brasil abra mão da responsabilidade pela proteção de suas fronteiras e de sua soberania.

CLIMA, AMAZÔNIA E MARGEM EQUATORIAL

A questão ambiental também ganhou destaque.

Lula afirmou que o Brasil pretende conciliar crescimento econômico e redução das emissões e reiterou que o país continuará pesquisando o potencial petrolífero de novas áreas, incluindo a Margem Equatorial.

Ao mesmo tempo, assegurou que o governo não pretende abandonar a agenda ambiental e destacou a redução do desmatamento da Amazônia.

O presidente também citou o Fundo Florestas Tropicais para Sempre, lançado na COP30, em Belém, e resumiu sua visão sobre a conservação das florestas:

“A floresta vale mais em pé do que destruída.”

Lula ressaltou ainda o papel estratégico do Brasil na transição energética, citando a matriz de energia renovável e as reservas brasileiras de minerais críticos e terras raras.

Segundo ele, a exploração desses recursos deverá gerar benefícios econômicos dentro do território brasileiro.

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL E BIG TECHS

Outro ponto de destaque foi a revolução provocada pela Inteligência Artificial.

Lula defendeu regulamentação internacional da IA e maior controle sobre as grandes plataformas digitais.

Segundo o presidente, seria uma “omissão histórica imperdoável” deixar de estabelecer regras para tecnologias capazes de produzir profundas transformações econômicas, sociais e políticas.

O presidente criticou a concentração de poder tecnológico em grandes corporações e defendeu transparência, responsabilidade e proteção dos cidadãos no ambiente digital.

Também abordou o impacto das plataformas de apostas — as chamadas BETs — sobre as famílias brasileiras e defendeu proteção de crianças, adolescentes e mulheres no ambiente digital.

PIX E SOBERANIA TECNOLÓGICA

Lula também mencionou o PIX, sistema brasileiro de pagamentos instantâneos.

O presidente afirmou que o Brasil não aceitará pressões que, segundo ele, possam ameaçar o caráter público e gratuito dessa infraestrutura de pagamentos.

A declaração inseriu a soberania tecnológica e financeira entre os temas estratégicos apresentados pelo Brasil à comunidade internacional.

FOME, DESIGUALDADE E DESENVOLVIMENTO

No campo social, Lula voltou a defender políticas públicas de distribuição de renda, geração de empregos, valorização salarial, educação e saúde.

O presidente sustentou que fome, pobreza e desigualdade não são fenômenos inevitáveis, mas problemas diretamente relacionados a decisões políticas.

Também destacou iniciativas internacionais lideradas pelo Brasil, como a Aliança Global contra a Fome e a Pobreza.

FIM DA ESCALA 6X1

Um tema diretamente relacionado à política interna brasileira também chegou à tribuna da ONU.

Lula defendeu o fim da chamada escala de trabalho 6×1 e afirmou que trabalhadores precisam de mais tempo para descanso, qualificação profissional e convivência familiar.

Segundo o presidente, a mudança também contribuiria para reduzir a sobrecarga doméstica que recai principalmente sobre as mulheres.

ELEIÇÕES BRASILEIRAS ENTRAM NO DISCURSO

Na parte final, Lula voltou os olhos para o Brasil.

O presidente lembrou que milhões de brasileiros irão às urnas em 4 de outubro para escolher presidente da República, governadores e representantes do Poder Legislativo.

Ele apresentou sua própria interpretação da disputa eleitoral, afirmando que o país enfrentará uma escolha entre caminhos políticos distintos.

Lula também alertou para aquilo que classificou como riscos de interferência externa e redes de desinformação durante a campanha.

Ao defender o sistema eleitoral brasileiro, afirmou que o país realizará eleições competitivas, com liberdade de expressão e fiscalização da sociedade e da imprensa.

E encerrou a mensagem política com uma declaração enfática:

“A democracia brasileira pertence aos brasileiros. O Brasil continuará sendo um país soberano. Ninguém… Ninguém nos afastará desse caminho.”

DA TRIBUNA DA ONU DE VOLTA À CAMPANHA

A passagem de Lula pelos Estados Unidos foi deliberadamente curta em razão do calendário eleitoral. A programação divulgada antes da Assembleia previa o retorno do presidente ao Brasil logo depois de sua participação na abertura do Debate Geral, para retomar seus compromissos no país.

Assim, poucas horas depois de ocupar uma das tribunas mais importantes da diplomacia mundial, Lula deixa Nova York e retorna ao cenário político brasileiro, a menos de duas semanas das eleições de 4 de outubro.

O discurso desta terça-feira combinou política externa e questões domésticas: guerras, reforma da ONU, soberania, democracia, combate ao crime organizado, mudanças climáticas, Amazônia, inteligência artificial, desigualdade, relações de trabalho e eleições.

Na décima vez em que abriu o Debate Geral das Nações Unidas, Lula procurou apresentar o Brasil como defensor do multilateralismo e, simultaneamente, projetar diante da comunidade internacional as prioridades que seu governo considera estratégicas para o país.

Da tribuna da ONU, sua mensagem central foi inequívoca: diante de uma ordem internacional marcada por guerras, disputas entre potências e enfraquecimento das instituições multilaterais, o Brasil reivindica diálogo, reforma da governança global e respeito à soberania nacional.

Carlos Magno
Jornalista DRT/PA 2627
Credenciado junto à Organização das Nações Unidas — ONU.

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