De 1992 a 2004, a trajetória de Armênio Oliveira Barreirinhas e Egon Kolling, o Alemão, atravessou quatro eleições municipais e produziu um episódio incomum na política: depois de receber o apoio do antigo prefeito para chegar ao poder, Alemão retribuiu o gesto anos mais tarde e apoiou a volta de Barreirinhas à Prefeitura.
BREU BRANCO (PA) — A política é marcada por alianças, rompimentos, disputas pelo poder e mudanças de lado. Por isso, quando antigos aliados conseguem atravessar eleições, inclusive como adversários, e posteriormente reconstruir uma aliança, o episódio ganha lugar na memória política de uma cidade.
Foi o que aconteceu em Breu Branco, no sudeste do Pará, envolvendo dois personagens que marcaram os primeiros anos da história política do município: Armênio Oliveira Barreirinhas e Egon Kolling, o Alemão.
Entre as eleições municipais de 1992, 1996, 2000 e 2004, os dois protagonizaram uma sequência política singular: Barreirinhas chegou primeiro à Prefeitura; depois apoiou Alemão para sucedê-lo; os dois posteriormente se enfrentaram nas urnas; e, quatro anos mais tarde, Alemão apoiou a volta de Barreirinhas ao comando do município.
É principalmente esse último capítulo que ficou como demonstração de reciprocidade entre os dois políticos.
1992: BARREIRINHAS TORNA-SE O PRIMEIRO PREFEITO
Breu Branco havia acabado de conquistar sua emancipação política. O município foi criado pela Lei Estadual nº 5.703, de 13 de dezembro de 1991, e instalado oficialmente em 1º de janeiro de 1993, após sua primeira eleição municipal, realizada em outubro de 1992.
Naquela eleição inaugural, Armênio Oliveira Barreirinhas venceu a disputa e entrou para a história como o primeiro prefeito de Breu Branco.
Era o começo da organização política e administrativa de um município recém-emancipado.
Na mesma eleição surgiu outro personagem que teria papel central nos anos seguintes: Egon Kolling, o Alemão, eleito vereador.
Alemão cresceu politicamente dentro do município e posteriormente chegou à Presidência da Câmara Municipal.
Estavam lançadas as bases de uma relação política que atravessaria os anos seguintes.
1996: BARREIRINHAS APOIA ALEMÃO PARA PREFEITO
Na eleição municipal seguinte, em 1996, Barreirinhas não poderia disputar um segundo mandato consecutivo, pois a possibilidade de reeleição para os chefes do Executivo ainda não existia no sistema eleitoral brasileiro.
Foi nesse momento que Alemão avançou da Câmara Municipal para a disputa pela Prefeitura.
Egon Kolling concorreu pelo PMDB, número 15, e venceu a eleição com 4.671 votos. Francisco Vilar de Araújo, do PSB, ficou em segundo lugar, com 2.064 votos, enquanto Domingos Farias dos Santos, do PT, recebeu 109 votos.
Alemão assumiu a Prefeitura em 1º de janeiro de 1997.
Documentação pública posterior confirma a sequência administrativa: Armênio Oliveira Barreirinhas governou Breu Branco de 1993 a 1996 e Egon Kolling comandou o município de 1997 a 2004.
2000: QUANDO ANTIGOS ALIADOS FORAM PARA LADOS OPOSTOS
Quatro anos depois, a política reservou um capítulo completamente diferente.
Na eleição de 2000, Alemão e Barreirinhas passaram a ocupar lados opostos da disputa municipal.
Era o encontro eleitoral entre duas das maiores lideranças daqueles primeiros anos de Breu Branco.
Alemão saiu vencedor e permaneceu à frente da Prefeitura por mais quatro anos.
A disputa poderia ter produzido um rompimento político definitivo.
Não produziu.
E é justamente o que aconteceu quatro anos depois que tornou essa história particularmente lembrada nos bastidores da política breuense.
2004: A HORA DA RETRIBUIÇÃO
Chegou 2004.
Depois de oito anos consecutivos administrando Breu Branco, Egon Kolling não poderia disputar novamente a Prefeitura.
Era o momento de escolher quem apoiaria para sua sucessão.
E Alemão tomou uma decisão carregada de simbolismo político: apoiou Armênio Oliveira Barreirinhas para voltar à Prefeitura.
O mesmo Barreirinhas que havia ocupado o primeiro mandato da história do município.
O mesmo político que estivera no processo que levou Alemão ao comando da Prefeitura em 1996.
E também o adversário que havia enfrentado nas urnas quatro anos antes.
A política, naquele momento, completava um círculo.
BARREIRINHAS VOLTA À PREFEITURA
Na eleição de 2004, Barreirinhas concorreu pelo PMDB, número 15, tendo Mário Filho como candidato a vice-prefeito.
Do outro lado estava Adimilson Mezzomo, do PTB, número 14.
A disputa foi apertada.
Barreirinhas recebeu 8.418 votos, correspondentes a 51,76% dos votos válidos, enquanto Mezzomo obteve 7.847 votos, ou 48,24%. A diferença foi de apenas 571 votos.
Barreirinhas estava novamente eleito prefeito de Breu Branco.
Assim, a sucessão histórica ficou registrada: Barreirinhas governou de 1993 a 1996; Alemão, de 1997 a 2004; e Barreirinhas retornou para administrar o município entre 2005 e 2008. Documentos públicos do Pará registram exatamente essa sequência de administrações.
DA ALIANÇA AO CONFRONTO — E DO CONFRONTO À RECONCILIAÇÃO
A história política entre Alemão e Barreirinhas não foi linear.
- Houve aliança.
- Houve sucessão.
- Houve confronto eleitoral.
- E houve, novamente, apoio político.
- É exatamente essa sequência que dá ao episódio um significado particular.
Na política, adversários de uma eleição podem tornar-se aliados na seguinte. Mas, no caso de Breu Branco, a narrativa ganhou outro componente: a percepção de que Alemão, depois de ter recebido apoio para chegar à Prefeitura, decidiu anos depois apoiar o retorno de Barreirinhas ao mesmo cargo.
Foi uma retribuição política.
LEALDADE E GRATIDÃO: UMA HISTÓRIA QUE FICOU
Quem acompanha a política sabe que o poder frequentemente modifica alianças. Companheiros se afastam, grupos se dividem e sucessores constroem projetos próprios.
Em Breu Branco, porém, a trajetória de Egon Kolling e Armênio Oliveira Barreirinhas oferece um exemplo diferente para análise.
Alemão construiu sua própria liderança, chegou à Prefeitura, consolidou-se eleitoralmente e governou o município por dois mandatos consecutivos entre 1997 e 2004. Anos depois, voltaria novamente ao comando municipal, no período de 2009 a 2012.
Mas, naquele decisivo ano de 2004, poderia ter escolhido outro caminho.
Escolheu apoiar Barreirinhas.
Por isso, para quem interpreta aquela sucessão pela ótica da reciprocidade política, 2004 representou a retribuição de Alemão ao homem que havia participado de sua ascensão ao Executivo municipal.
Barreirinhas abriu espaço para Alemão.
Alemão construiu sua própria história.
Os dois chegaram a se enfrentar.
E, depois da disputa, voltaram a caminhar politicamente juntos.
Talvez seja justamente aí que esteja o aspecto mais marcante dessa história: uma eleição colocou os dois em campos adversários, mas não apagou uma relação política construída anteriormente.
Entre vitórias, derrotas, alianças e confrontos, os nomes de Armênio Oliveira Barreirinhas e Egon Kolling, o Alemão, ficaram definitivamente inscritos nos primeiros capítulos da história política de Breu Branco.
E a eleição de 2004 permanece como um dos episódios mais emblemáticos dessa relação.
Carlos Magno
Jornalista – DRT/PA 2627
Conhecedor dos bastidores da política paraense desde 1976.
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