RELEMBRE O CASO | Irmãos Gabrielle e Andrey Mota: o crime que chocou Canaã dos Carajás e segue marcado por mistério, ameaças e clamor por justiça

Engenheira da Vale e seu irmão foram executados a tiros no estacionamento da ExpoCanaã em 2023; treze dias antes, mãe havia recebido mensagem ameaçadora por WhatsApp
Por Ana Reis Notícias | anareisnoticias.com.br
O crime
Na madrugada do dia 28 de outubro de 2023, a engenheira civil Gabrielle Souza Mota, de 25 anos, funcionária da mineradora Vale, e seu irmão Andrey Pereira Mota, de 31 anos, foram assassinados a tiros no estacionamento da Feira Agropecuária de Canaã dos Carajás (ExpoCanaã), após saírem de um show da dupla Iguinho e Lulinha.
Por volta das 4h30 da manhã, Gabrielle, Andrey e uma amiga seguiram para o estacionamento. Gabrielle entrou no veículo, um Volkswagen Polo branco, e sentou-se no banco do motorista. Andrey ocupou o banco do passageiro e a amiga ficou no banco traseiro.
Quando Gabrielle ligou o carro e abaixou os vidros para dar ré, um homem armado se aproximou do veículo e anunciou um suposto assalto, exigindo os celulares e a chave do carro. Andrey entregou o aparelho primeiro. Gabrielle, nervosa, deixou seu celular cair entre os bancos. Ao ligar a luz interna do veículo para procurá-lo, o criminoso a ameaçou. Ela obedeceu, encontrou o celular e entregou. Nesse momento, o criminoso encostou o cano da arma na cabeça de Gabrielle e disparou. Em seguida, atirou contra Andrey a uma distância de aproximadamente cinquenta centímetros, também atingindo a cabeça da vítima.
Os criminosos estavam sem máscara, com os rostos descobertos. Um deles permaneceu pilotando a motocicleta enquanto o outro desceu para cometer o crime. Após os disparos, o atirador fugiu na garupa de uma motocicleta alta e de cor escura, levando apenas os celulares e a chave do carro. O aparelho da amiga que estava no banco traseiro não foi levado.
Indícios de premeditação
A perícia criminal confirmou que os disparos foram efetuados com um revólver calibre .38 e identificou que os pneus do lado do motorista estavam esvaziados, reforçando a suspeita de que o crime tenha sido planejado previamente. Além de esvaziados, os pneus apresentavam sinais de cortes, o que indicaria que os criminosos prepararam a emboscada para impedir que as vítimas deixassem o local.
A hipótese de latrocínio passou a ser questionada ao longo das investigações, uma vez que outros bens das vítimas, como o veículo e objetos de valor, não foram levados. A mãe de Gabrielle, Celma Mota, sempre rejeitou a versão de roubo seguido de morte e sustentou desde o início que se tratava de uma execução premeditada.
A mensagem de ameaça
Treze dias antes do duplo assassinato, em 15 de outubro de 2023, Celma Mota recebeu uma mensagem anônima por WhatsApp com ameaças direcionadas à filha. A mensagem, que consta nos autos do inquérito, continha a seguinte ameaça: que Gabrielle deveria parar de se envolver com um homem casado, caso contrário, sofreria consequências.
A Polícia Civil conseguiu localizar o aparelho de onde a mensagem foi enviada. O número estava vinculado a um celular de uso comercial em uma loja de assistência técnica, acessado por diferentes pessoas e chips. Seis testemunhas foram ouvidas, mas o autor da ameaça não foi identificado.
Quem eram as vítimas
Andrey morava na cidade de Xinguara, onde trabalhava como entregador. Havia viajado para Canaã dos Carajás para comemorar o aniversário do pai, Antônio Rodrigues Mota, no dia 27 de outubro. Como o pai trabalharia na manhã seguinte, a confraternização em família foi adiada para o sábado. Os irmãos decidiram, então, ir ao show na ExpoCanaã.
Gabrielle era engenheira civil, funcionária da Vale, e mãe de dois meninos — o mais velho de 5 anos, que passou a morar com a avó Celma, e o mais novo com apenas um ano e quatro meses, que mora com o pai.
Celma relatou que, por volta das 3 horas da madrugada, ligou para a filha pedindo que voltassem para casa. Gabrielle pediu que, se precisasse, ligasse para o irmão, pois a bateria de seu celular estava acabando. Às 4 horas, nenhum dos dois atendia mais. Pela manhã, um amigo de Gabrielle apareceu na casa da família com a notícia. Andrey morreu no local. Gabrielle chegou a ser levada ao hospital, mas não resistiu aos ferimentos. Os irmãos foram enterrados juntos em Xinguara.
Investigação marcada por trocas e atrasos
O local do crime não possuía câmeras de segurança, mas imagens obtidas pela Secretaria Municipal de Segurança Pública Viária (SEMSPUV) registraram a circulação de três motocicletas escuras nas imediações em horários próximos ao crime. Os proprietários desses veículos, porém, não foram ouvidos na fase inicial da apuração.
O inquérito foi inicialmente conduzido pela Polícia Civil de Canaã dos Carajás, sob a responsabilidade da delegada Isabella de Luca Martines, que posteriormente foi transferida para Parauapebas. Em abril de 2024, o delegado Luca França da Costa Soares assumiu o caso, solicitando nova prorrogação de prazo ao juiz da Vara Criminal.
O processo, composto por 163 páginas, continha detalhes da investigação, mas continuava sem identificar os autores do crime.
Delegacia de Homicídios assume o caso
Em dezembro de 2025, o caso foi oficialmente assumido pela Delegacia de Homicídios (DH) de Parauapebas, reconhecida pela atuação especializada em crimes contra a vida. A equipe iniciou uma reanálise completa do caso, com revisão de provas, depoimentos e linhas investigativas que não avançaram no período inicial.
A transferência foi viabilizada após a implantação da Superintendência Regional da Polícia Civil em Parauapebas, estrutura que ampliou a capacidade de atuação da corporação no sudeste do Pará.
O clamor de uma mãe
Celma Mota relatou que um flanelinha que trabalhava no estacionamento também teria visto o rosto dos criminosos, tendo inclusive apontado uma lanterna em direção a eles, mas os criminosos apontaram a arma para ele, que fugiu.
O filho mais velho de Gabrielle, de apenas 5 anos, perguntava à avó: “Vovó, vamos de casa em casa perguntar quem fez isso com a mamãe?” — um retrato da dor que a família carrega desde aquela madrugada de outubro de 2023.
Mais de dois anos depois, a operação deflagrada nesta segunda-feira (27), sob a coordenação do Delegado João Abel, da 16ª Superintendência Regional, representa a primeira ação concreta com prisões ligadas a este caso, trazendo esperança de que a justiça finalmente alcance os responsáveis por essa tragédia.
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