Em Canaã dos Carajás, o atendimento ofertado pelo Poder Público às mulheres vítimas de diferentes formas de violência tem papel fundamental no acolhimento, acompanhamento e proteção de pessoas em situação de vulnerabilidade social.
Segundo dados do relatório mensal de julho de 2026, consolidados a partir de informações da Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (DEAM), do Fórum da Comarca de Canaã dos Carajás e do Centro de Referência de Atendimento à Mulher (CRAM), vinculado à Secretaria da Mulher e da Juventude da Prefeitura Municipal de Canaã dos Carajás, foram realizados, ao todo, 584 atendimentos técnicos: 258 na assistência social, 181 na área psicológica e 145 no atendimento jurídico. Os números reforçam a importância da atuação integrada da rede de proteção no acolhimento e apoio às vítimas, contribuindo para o rompimento do ciclo de violência.
O mesmo relatório revela que a violência psicológica foi a forma mais registrada no período, com 165 ocorrências, seguida pela violência física, com 92 casos. Também foram contabilizados 24 casos de violência patrimonial, 11 de violência sexual e nove de violência moral.
Entre janeiro e julho de 2026, foram registradas 173 Medidas Protetivas de Urgência (MPUs) para vítimas de violência. Desse total, 161 permanecem ativas e 12 foram retiradas. Considerando o período de 2021 a 30 de julho de 2026, o acumulado chega a 1.487 medidas.
Em relação ao vínculo entre vítima e autor da violência, os ex-companheiros aparecem em primeiro lugar, com 114 registros, seguidos pelos companheiros, com 39 ocorrências. Os demais casos envolvem outros vínculos familiares e afetivos, como namorado, irmão, filho, amigo, cunhada, sobrinho, padrasto, ex-madrasta e companheira.
Para Débora Vasconcelos, assistente social e coordenadora do CRAM, um dos principais desafios é identificar e acolher mulheres que sofrem violências que nem sempre deixam marcas visíveis, como controle, humilhação, ameaças, isolamento e violência psicológica. Segundo ela, o medo de denunciar, a dependência financeira, a preocupação com os filhos e a reação do agressor podem dificultar o rompimento do ciclo.
“Nosso papel é acolher sem julgamento, fortalecer essa mulher, oferecer orientação e mostrar que ela não está sozinha. Romper o ciclo da violência é um processo que envolve recuperar a autoestima, a autonomia, a segurança e o direito de viver uma vida livre de violência.”, disse Débora.
Entre 1º de janeiro de 2021 e 29 de dezembro de 2025, foram contabilizados 1.314 registros de acompanhamento de vítimas de violência. Os dados, elaborados a partir de informações da Delegacia da Mulher, Fórum e Centro de Referência de Atendimento à Mulher (CRAM), integram o levantamento da evolução anual dos atendimentos no período.
A Prefeitura, por meio do Centro de Referência de Atendimento à Mulher (CRAM), oferece atendimento psicossocial e jurídico às mulheres vítimas de violência, considerando as diferentes dimensões de vulnerabilidade que podem estar envolvidas. O serviço também disponibiliza acompanhamento psicológico e orientação jurídica.
O atendimento psicológico busca auxiliar mulheres que enfrentam consequências emocionais da violência, enquanto a assistência jurídica oferece informações sobre direitos, medidas protetivas e os caminhos legais disponíveis para cada situação.
A especialista em educação sexual, Stella Brasil, que trabalha com empoderamento feminino e fortalecimento do sistema de garantia de direitos feminino, a violência psicológica encontra no caráter invisível das agressões um dos principais obstáculos para sua identificação e enfrentamento. “Como a violência psicológica não deixa marcas aparentes, os abusadores passam por ‘bons moços’, socialmente falando. Eles não se autodelatam.”, afirma. Segundo ela, essa aparência social contribui para que comportamentos abusivos permaneçam ocultos e dificulta que as vítimas sejam reconhecidas e acolhidas em situações de violência doméstica.
A especialista também chama atenção para a influência de valores familiares e religiosos na forma como algumas mulheres lidam com situações de violência. “Os homens confiam que a educação familiar e religiosa feminina colaborará para a manutenção de suas imagens de ‘bons esposos’.”, afirma Stella.
A Delegada de Polícia, Nathália Ferreira, titular da Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (DEAM), em Canaã dos Carajás, explica a importância de mulheres e meninas romperem a barreira do silêncio e denunciarem qualquer forma de violência.
“O silêncio é o maior aliado do agressor. Romper essa barreira e denunciar qualquer forma de violência é fundamental para que a rede de proteção e as autoridades possam agir, acolher a vítima e responsabilizar o agressor. Mesmo diante do medo, da vergonha ou do receio das consequências, é importante que mulheres e meninas saibam que não precisam enfrentar a violência sozinhas,”, pontuou.
A delegada ressalta como mensagem de alerta para mulheres que ainda não se sentem seguras ou preparadas para denunciar. “Quero dizer que elas não estão sozinhas e que existem profissionais capacitados para atendê-las e orientá-las. Se ainda não se sentirem preparadas para formalizar uma denúncia, procurem alguém de confiança ou um serviço da rede de proteção do município. Não se deve ter vergonha de pedir ajuda. A responsabilidade pela violência é sempre de quem a pratica.”, concluiu.
SÉRIE ESPECIAL
Na próxima semana, estreia a Série Especial intitulada de “Cinco histórias, uma luta, muitas vozes”. Serão histórias centradas nas experiências de mulheres que sofreram diferentes tipos de violência como psicológica, sexual, física e vicária. As matérias jornalísticas serão publicadas no período de 17 a 21 de agosto (uma por dia).
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