O Brasil registrou um salto de 278% no número de idosos que utilizam internet nos últimos oito anos. Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua TIC), divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2024, o país passou de 6,5 milhões para 24,5 milhões de pessoas com 60 anos ou mais conectadas à rede entre 2016 e 2024. Atualmente, 69,4% dos idosos brasileiros usam internet, sendo que 86,5% deles acessam a rede todos os dias.
Os números revelam uma transformação no perfil digital da terceira idade. Em 2019, apenas 44,8% dos idosos haviam usado internet durante o ano. Cinco anos depois, esse percentual chegou a 69,4%. A posse de celular também avançou: 78,1% dos idosos possuíam aparelho para uso pessoal em 2024, contra 66,6% em 2019 – o maior crescimento entre todos os grupos etários analisados pelo IBGE.
“Observamos que o uso de tecnologia por idosos teve expansão acelerada, especialmente após a pandemia. Esse grupo etário apresentou o crescimento mais expressivo na adoção de dispositivos móveis”, destaca a pesquisa do IBGE.
Inteligência artificial como ferramenta de autonomia
A chegada da inteligência artificial (IA) ao cotidiano tem ampliado as possibilidades de uso da tecnologia pela população idosa. Assistentes virtuais, aplicativos de monitoramento de saúde e plataformas de telemedicina se tornaram recursos cada vez mais presentes na rotina de quem busca envelhecer de forma ativa e conectada.
Uma pesquisa de doutorado desenvolvida pela especialista Sandra Rodrigues no Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da Universidade de São Paulo (USP), em São Carlos, propôs diretrizes de design para tornar aplicativos e plataformas digitais mais acessíveis aos idosos. O trabalho, orientado pela professora Kamila Rodrigues, foi reconhecido com o Prêmio Junia Coutinho Anacleto de Melhor Trabalho de Doutorado no Simpósio Brasileiro sobre Fatores Humanos em Sistemas Computacionais (IHC 2024).
“Em seus estudos de literatura, Sandra percebeu que essas tecnologias são de difícil interação para idosos. Não consideram suas dificuldades de visão, audição, destreza e as dificuldades cognitivas inerentes do processo de envelhecimento”, explica a professora Kamila Rodrigues.
Entre as soluções propostas estão o uso de letras grandes e contraste claro para aumentar a legibilidade, interfaces simples, botões grandes, feedback tátil (vibração) e sonoro, além de mecanismos para facilitar a recuperação de erros.
Barreiras ainda existem
Apesar dos avanços, a inclusão digital da terceira idade enfrenta obstáculos significativos. Segundo o IBGE, entre os idosos que não possuem celular, 59,3% alegam não saber usar o aparelho como principal motivo para a não adoção da tecnologia. Dados da Federação Brasileira de Bancos (Febraban) de 2022 apontam que dificuldade de usabilidade, falta de familiaridade com as ferramentas e medo são os principais impedimentos para a inclusão desse público.
Para enfrentar esses desafios, iniciativas de alfabetização digital têm surgido em diversas instituições. A USP São Carlos, por exemplo, oferece curso gratuito sobre inteligência artificial para pessoas com 60 anos ou mais, promovido pelo ICMC.
Alerta sobre etarismo na tecnologia
Enquanto a tecnologia se apresenta como aliada, especialistas alertam para os riscos de discriminação. A Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou recentemente um documento chamando atenção para o desenvolvimento e uso da inteligência artificial de forma discriminatória com a população idosa – o chamado etarismo tecnológico.
A Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) divulgou o alerta da OMS, destacando que “a codificação de estereótipos, preconceitos, discriminação e etarismo na tecnologia de IA pode minar a qualidade dos cuidados de saúde para idosos”. A organização recomenda que a população idosa seja incluída em todo o processo de desenvolvimento dessas tecnologias, desde a formulação do design até seu uso final.
A SBGG também firmou parceria com a Voa Health, empresa especializada em inteligência artificial para a área da saúde, visando ampliar o acesso de idosos a soluções tecnológicas adaptadas às suas necessidades.
Perspectivas
Segundo o IBGE, a população idosa brasileira quase duplicou nos últimos anos, saltando de 8,7% em 2000 para 15,6% em 2023. Diante desse cenário de envelhecimento populacional, especialistas defendem que a inclusão digital deixou de ser opcional para se tornar uma questão de cidadania e autonomia.
“Pensar um design inclusivo deve ser um requisito básico para produtores de soluções computacionais”, reforça a professora Kamila Rodrigues, da USP.
CAIXA DE APOIO – “Entenda os números”
📊 78,1% dos idosos possuem celular (2024) 📊 69,4% dos idosos usam internet (2024) 📊 278% foi o crescimento de idosos online entre 2016-2024 📊 86,5% dos idosos conectados acessam internet todos os dias 📊 59,3% dos idosos sem celular não sabem usar o aparelho
Fonte: IBGE (PNAD Contínua TIC 2024)
FICHA TÉCNICA DA NOTÍCIA
✅ Todas as fontes são verificáveis:
- IBGE – Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD TIC 2024)
- Sandra Rodrigues – Pesquisadora, tese de doutorado ICMC/USP
- Profa. Kamila Rodrigues – Orientadora, ICMC/USP São Carlos
- Organização Mundial da Saúde (OMS) – via divulgação SBGG
- Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG)
- Febraban (2022)
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