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Eleições 2026

Esqueçam a eleição: Lula e Flávio Bolsonaro disputam um plebiscito sobre dois projetos de Brasil

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Esqueçam a eleição: Lula e Flávio Bolsonaro disputam um plebiscito sobre dois projetos de Brasil

A poucos dias das urnas, a eleição presidencial de 2026 adquiriu características de um grande plebiscito nacional. De um lado, Luiz Inácio Lula da Silva (PT); do outro, Flávio Bolsonaro (PL). Mais do que dois candidatos, confrontam-se duas visões sobre economia, segurança pública, papel do Estado, costumes, religião, apostas on-line, instituições e o lugar do Brasil no mundo.

A eleição presidencial de 2026 não é, evidentemente, um plebiscito no sentido jurídico da palavra.

Existem outros candidatos, outros partidos, outras propostas e milhões de brasileiros que não se identificam integralmente nem com Lula nem com Flávio Bolsonaro.

Politicamente, porém, a polarização transformou a reta final da eleição em algo muito parecido com um enorme plebiscito nacional.

De um lado está o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição e principal representante do campo da esquerda e da centro-esquerda.

Do outro está o senador Flávio Bolsonaro (PL), principal representante eleitoral da direita bolsonarista nesta disputa.

Não se trata apenas de decidir quem ocupará o Palácio do Planalto pelos próximos quatro anos.

O eleitor está sendo chamado a escolher entre projetos que apresentam diferenças profundas sobre algumas das questões mais importantes do Brasil.

É praticamente uma consulta popular sobre qual direção o país deverá seguir.

DOIS CAMPOS POLÍTICOS, DUAS VISÕES DE PAÍS

Uma parcela expressiva da esquerda defende maior presença do Estado na promoção do desenvolvimento, políticas sociais, investimentos públicos, proteção trabalhista, políticas ambientais, controle de armas, combate às desigualdades e uma política externa multilateral.

Uma parcela expressiva da direita defende redução da máquina pública, maior participação da iniciativa privada, endurecimento das políticas de segurança, posições mais conservadoras nos costumes, revisão de determinadas relações institucionais e maior aproximação estratégica com os Estados Unidos.

É claro que nenhum desses campos é uniforme.

Nem todo eleitor de Lula pensa igual.

Nem todo eleitor de Flávio Bolsonaro pensa igual.

Mas as diferenças entre os dois projetos são suficientemente profundas para explicar por que esta eleição ultrapassou a simples disputa entre candidatos.

NA ECONOMIA, DOIS CAMINHOS

Lula aposta numa combinação entre responsabilidade fiscal, investimentos públicos, programas sociais, infraestrutura e política industrial como instrumentos para promover crescimento econômico e redução das desigualdades.

Flávio Bolsonaro apresenta uma visão de maior contenção das despesas públicas, redução da estrutura governamental, diminuição de ministérios e retomada de políticas de desestatização.

A divergência conduz a uma pergunta histórica da política brasileira:

qual deve ser o tamanho e, principalmente, qual deve ser o papel do Estado na economia e na vida das pessoas?

Para parte da esquerda, o Estado precisa ser instrumento de desenvolvimento e redução das desigualdades.

Para parte da direita, o excesso de Estado significa gastos, burocracia e obstáculos ao crescimento da iniciativa privada.

E o eleitor terá de confrontar essas duas concepções.

SEGURANÇA PÚBLICA: DUAS RECEITAS PARA ENFRENTAR O CRIME

A segurança pública é outro divisor.

Lula defende maior integração entre União, estados e municípios, investimentos em inteligência, enfrentamento financeiro das organizações criminosas, controle de armas e políticas de prevenção.

Flávio Bolsonaro coloca maior ênfase no endurecimento da legislação penal e das respostas do Estado contra criminosos, incluindo propostas como redução da maioridade penal e mudanças nas regras de cumprimento das penas.

Os dois lados afirmam que pretendem combater o crime organizado.

A diferença está principalmente nos instrumentos escolhidos para fazer isso.

Mais inteligência, prevenção e integração?

Ou maior endurecimento das penas e encarceramento?

Outra decisão que chegará às urnas.

O FIM DAS BETS ENTROU NO CENTRO DA ELEIÇÃO

E eis que, praticamente na reta final, surgiu mais um tema capaz de atravessar a tradicional divisão entre esquerda e direita: as bets.

Lula assinou a Medida Provisória nº 1.394/2026, que extingue as apostas de quota fixa no Brasil.

A medida proíbe exploração, oferta, intermediação e publicidade dessas apostas, inclusive quando oferecidas por empresas sediadas no exterior a pessoas que estejam no Brasil.

A decisão foi apresentada pelo governo como resposta aos problemas de endividamento das famílias e aos impactos sociais e de saúde associados ao jogo compulsivo.

A MP já está produzindo efeitos, embora ainda dependa da aprovação do Congresso Nacional para se transformar definitivamente em lei.

E o assunto imediatamente entrou na batalha eleitoral.

Lula passou a apresentar o fim das bets como uma medida de proteção das famílias, especialmente da população mais vulnerável aos efeitos do endividamento e da dependência em jogos.

A campanha de Flávio Bolsonaro reagiu argumentando que Lula tenta obter dividendos políticos de um problema cuja expansão ocorreu durante seu próprio governo.

Assim, até mesmo as apostas on-line passaram a integrar este gigantesco plebiscito informal de 2026.

E a questão é muito maior do que simplesmente ser contra ou a favor de uma casa de apostas.

O debate envolve liberdade econômica, responsabilidade individual, proteção das famílias, saúde pública, endividamento, publicidade, arrecadação tributária e os limites da intervenção do Estado.

Mais uma vez surge a pergunta:

até onde o Estado deve intervir para proteger o cidadão de atividades potencialmente prejudiciais?

A RELIGIÃO TAMBÉM CHEGOU AO CENTRO DA DISPUTA

Talvez nenhum terreno seja tão sensível nesta eleição quanto a religião.

O Brasil é constitucionalmente um Estado laico.

Isso significa que não existe religião oficial e que o Estado deve assegurar a liberdade religiosa.

Mas Estado laico não significa sociedade sem religião.

Muito pelo contrário.

A fé faz parte da vida de milhões de brasileiros e, inevitavelmente, valores religiosos também influenciam a maneira como muitos cidadãos enxergam questões políticas e sociais.

E a eleição de 2026 mostrou isso com enorme intensidade.

Flávio Bolsonaro possui forte identificação com parcelas do eleitorado evangélico e conservador e tem utilizado referências religiosas em manifestações públicas.

Uma de suas declarações que ganhou repercussão nacional foi a afirmação de que, caso chegasse à Presidência, um de seus primeiros atos seria declarar que o Brasil pertence a Jesus Cristo.

A frase provocou debates justamente porque coloca no centro da campanha a delicada relação entre religião e Estado.

Lula, por sua vez, declara-se cristão e católico, mas sustenta publicamente que religião e política não devem ser confundidas e procura defender o caráter laico do Estado ao mesmo tempo em que dialoga com católicos e evangélicos.

A disputa religiosa tornou-se ainda mais evidente com a circulação de uma informação falsa segundo a qual Flávio Bolsonaro, se eleito, retiraria de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil.

A informação foi desmentida pela própria campanha de Flávio e tornou-se mais um exemplo de como a fé passou a ser utilizada na guerra política e também na desinformação eleitoral.

Esse episódio deveria servir de alerta para todos.

A fé de milhões de brasileiros merece respeito e não pode ser transformada irresponsavelmente em instrumento de desinformação eleitoral.

CATÓLICOS E EVANGÉLICOS NÃO FORMAM BLOCOS POLÍTICOS ÚNICOS

Também seria um erro imaginar que todo evangélico vota na direita ou que todo católico vota na esquerda.

A realidade brasileira é muito mais complexa.

Existem evangélicos com Lula e evangélicos com Flávio.

Existem católicos com Lula e católicos com Flávio.

Existem pessoas profundamente religiosas que sequer se identificam com qualquer um dos dois campos.

Mas é inegável que temas relacionados a família, aborto, drogas, sexualidade, liberdade religiosa, educação e presença da religião no espaço público passaram a ocupar posição relevante na disputa política.

Para setores conservadores, essas são questões fundamentais para a preservação de determinados valores familiares e religiosos.

Para setores progressistas, a preocupação central está na preservação dos direitos individuais, da diversidade, da liberdade religiosa e da separação entre religião e Estado.

São concepções diferentes.

E elas também estarão representadas diante das urnas.

O STF E A RELAÇÃO ENTRE OS PODERES

Outro grande divisor é a relação com o Supremo Tribunal Federal.

Flávio Bolsonaro e setores da direita defendem mudanças destinadas a limitar determinadas decisões individuais de ministros e discutem alterações na relação entre os Poderes.

O campo governista, por outro lado, sustenta uma relação institucional diferente com o Supremo e dirige parte importante de suas críticas ao crescimento do poder do Congresso sobre o Orçamento da União.

É uma discussão que ultrapassa pessoas.

O que está sendo debatido é o próprio funcionamento das instituições brasileiras e o equilíbrio entre Executivo, Legislativo e Judiciário.

COSTUMES: UMA BATALHA QUE VAI ALÉM DA POLÍTICA

Aborto.

Drogas.

Armas.

Família.

Religião.

Direitos das mulheres.

Diversidade.

Liberdade individual.

Liberdade religiosa.

São assuntos que ajudam a explicar por que a eleição de 2026 desperta paixões tão intensas.

Grande parcela da direita conservadora enfatiza valores tradicionais, defesa da família, oposição ao aborto e às drogas e maior presença de referências religiosas no debate público.

Setores da esquerda enfatizam direitos individuais, igualdade, diversidade, políticas para grupos vulneráveis e defesa do Estado laico.

Mais uma vez, não existem dois blocos perfeitamente homogêneos.

Mas existem diferenças políticas e culturais reais.

ATÉ O LUGAR DO BRASIL NO MUNDO ESTÁ EM DISCUSSÃO

A divergência chega também à política externa.

Lula aposta historicamente no multilateralismo, na integração sul-americana, no Mercosul, nos BRICS e numa diplomacia que procura manter relações simultaneamente com Estados Unidos, Europa, China e países do chamado Sul Global.

Flávio Bolsonaro apresenta maior afinidade política com a direita internacional e defende maior aproximação estratégica com os Estados Unidos sob Donald Trump, além de posições diferentes das do atual governo em importantes questões internacionais.

Portanto, outra pergunta estará implicitamente colocada diante das urnas:

qual deve ser o lugar do Brasil no mundo?

NÃO É APENAS LULA CONTRA FLÁVIO

É justamente por tudo isso que considero insuficiente dizer que o Brasil realizará apenas mais uma eleição presidencial.

Há muito mais em jogo.

Maior presença do Estado ou maior protagonismo do mercado.

Investimento público ou maior contenção dos gastos.

Controle mais rígido sobre armas ou políticas diferentes de acesso ao armamento.

Prevenção e inteligência ou maior endurecimento penal.

Proibição das bets ou discussão sobre os limites da intervenção estatal.

Estado laico e diferentes concepções sobre a presença da religião na política.

Multilateralismo ou maior aproximação com os Estados Unidos.

Diferentes visões sobre costumes, família, direitos individuais e instituições.

É uma lista impressionante de divergências.

E todas convergem para a mesma urna.

O BRASIL DIANTE DO ESPELHO

Talvez esta seja a melhor maneira de compreender 2026.

O Brasil está diante do espelho.

Lula e Flávio Bolsonaro não representam simplesmente dois homens querendo ocupar a mesma cadeira.

Eles personificam, nesta eleição, dois campos políticos que oferecem respostas diferentes para questões fundamentais do país.

Mas o Brasil é muito maior do que Lula.

É muito maior do que Flávio Bolsonaro.

É muito maior do que esquerda ou direita.

Existem milhões de brasileiros que transitam entre essas posições, concordando com um lado em determinados assuntos e discordando dele em outros.

Essa complexidade precisa ser respeitada.

Ainda assim, a polarização transformou a eleição numa espécie de plebiscito informal sobre dois projetos de Brasil.

Por isso, quando o eleitor entrar na cabine de votação no próximo domingo, não estará escolhendo somente um nome.

Estará escolhendo prioridades.

Valores.

Políticas públicas.

Uma determinada concepção de Estado.

Uma determinada visão sobre economia.

Uma determinada maneira de enfrentar a violência.

Uma determinada relação entre religião e política.

E uma determinada ideia sobre o lugar que o Brasil deve ocupar no mundo.

É isso que torna 2026 uma eleição tão particular.

Oficialmente, será uma eleição presidencial.

Politicamente, porém, adquiriu a dimensão de um grande plebiscito nacional.

E, como deve acontecer em toda democracia, a resposta final não pertence aos candidatos, aos partidos, às igrejas, aos empresários, às pesquisas ou às redes sociais.

Pertence ao eleitor brasileiro.

Carlos Magno
Jornalista – DRT/PA 2627.

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