CPI do “tapa-buraco” em Parauapebas: cinco vereadores assinam, doze se recusam e população cobra transparência

Investigação quer apurar destino de mais de R$ 174 milhões gastos em pavimentação na gestão Aurélio Goiano; falta apenas uma assinatura para instauração
A Câmara Municipal de Parauapebas vive um dos momentos de maior tensão política dos últimos anos. Uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar os mais de R$ 174 milhões gastos em operações de tapa-buraco e pavimentação no município está pronta, mas ainda depende de uma única assinatura para ser oficialmente instaurada. Dos 17 vereadores que compõem a Casa, apenas cinco assinaram o requerimento — e os outros 12 se recusam a apoiar a investigação.
Quem assinou a CPI
Os cinco parlamentares que firmaram o pedido de abertura da CPI são:
- Maquivalda Barros (PDT)
- Anderson Moratorio (PRD) — presidente da Câmara Municipal
- Érica Ribeiro (PSDB)
- Fred Sanção (PL)
- Zé do Bode (UNIÃO)
A vereadora Maquivalda Barros é quem tem liderado as denúncias, apontando que mais de R$ 174 milhões já foram destinados para obras de pavimentação e melhorias viárias — recursos que, segundo ela, não se refletem na realidade das ruas do município.
Os 12 vereadores que não assinaram
Os seguintes vereadores ainda não aderiram ao pedido da CPI:
- Michel Carteiro (PV)
- Léo Márcio (Solidariedade)
- Laécio da ACT (PDT)
- Graciele Brito (UNIÃO)
- Leandro do Chiquito (Solidariedade)
- Francisco Eloécio (PSDB)
- Sargento Nogueira (AVANTE)
- Tito do MST (PT)
- Elias da Construforte (PV)
- Alex Ohana (PDT)
- Zé da Lata (AVANTE) — pai do prefeito Aurélio Goiano
- Sadisvan (PRD)
Chama a atenção que entre os que não assinaram estão dois vereadores do AVANTE, partido do próprio prefeito Aurélio Goiano, incluindo Zé da Lata, pai do chefe do Executivo. Para que a CPI seja instaurada, é necessário o mínimo de um terço dos parlamentares, ou seja, seis assinaturas.
O cenário nas ruas: caos, prejuízos e mortes
A discussão sobre os gastos com tapa-buraco acontece em meio a uma crise real de infraestrutura. Parauapebas enfrenta um cenário de vias destruídas, com buracos que já causaram acidentes graves e até mortes.
Na PA-160, um motociclista perdeu a vida após bater em um buraco na pista. Relatos de carros destruídos, motos quebradas, pneus estourados e suspensões danificadas tornaram-se rotina entre os moradores. Em um episódio emblemático, um caminhão carregado de cerveja caiu em um buraco, e o proprietário perdeu quase toda a carga.
Tudo isso ocorre em um município cuja arrecadação ultrapassa R$ 3 bilhões — o que intensifica o questionamento popular: para onde está indo o dinheiro?
A retomada do tapa-buraco
Em resposta à pressão popular e às tragédias, a Prefeitura de Parauapebas anunciou a retomada da operação tapa-buraco a partir de 27 de abril, coordenada pela Secretaria Municipal de Obras (Semob). As equipes atuam nos bairros Parque dos Carajás, Beira Rio I e II, Jardim Canadá, na Rodovia Faruk Salmen e nos bairros Guanabara e da Paz.
O prefeito Aurélio Goiano afirmou que “a operação tapa-buraco é essencial para assegurar melhores condições de tráfego, reduzir riscos de acidentes e proporcionar mais qualidade de vida à população”.
Linha do tempo: o histórico de polêmicas com tapa-buraco em Parauapebas
A questão dos gastos com pavimentação em Parauapebas não é de hoje. Uma análise histórica revela um padrão de valores elevados e questionamentos recorrentes:
Gestão Darci Lermen (MDB) — 2017 a 2024
- 2020: A operação tapa-buraco foi suspensa pela Justiça por suspeita de superfaturamento. O orçamento, que inicialmente era de aproximadamente R$ 40 milhões, saltou para mais de R$ 80 milhões em poucos meses, levantando questionamentos sobre a eficiência e a legalidade dos gastos.
- 2021: Um novo edital de licitação para serviços de tapa-buraco foi publicado, dessa vez ao custo de R$ 55,5 milhões, dividido em dois lotes (R$ 28 milhões e R$ 27,5 milhões).
Darci Lermen, do MDB, governou Parauapebas de 2017 a 2020 (primeiro mandato) e de 2021 a 2024 (segundo mandato, após reeleição com 57.384 votos — 48,42% dos válidos).
Gestão Aurélio Goiano (AVANTE) — a partir de janeiro de 2025
- Janeiro de 2025: Aurélio Goiano toma posse como prefeito de Parauapebas ao lado do vice-prefeito Chico das Cortinas (PRD), após vencer as eleições de 2024 com 58,52% dos votos.
- Novembro de 2025: A bancada de oposição protocola requerimento na Câmara pedindo a convocação de agentes públicos para esclarecer irregularidades no Contrato Administrativo nº 20230451/2023, referente à construção de oito pontes no valor global de R$ 7,8 milhões. O caso mais emblemático envolve a ponte sobre o rio Pulgas, na vicinal Alto Bonito, zona rural do município: foram pagos R$ 1,5 milhão por uma obra que, segundo vistorias no local, nunca existiu. Onde deveria haver um canteiro de obras, foi encontrada apenas uma pequena estrutura antiga de bueiro.
- Fevereiro de 2026: Na Câmara, a vereadora Maquivalda Barros acusa publicamente a gestão de Aurélio Goiano de pagar R$ 1,5 milhão por uma ponte inexistente. A sessão gera ampla repercussão nas redes sociais.
- Abril de 2026: A CPI do tapa-buraco é formalizada com cinco assinaturas. Falta apenas uma para atingir o mínimo de seis (um terço dos 17 vereadores). Enquanto isso, 12 parlamentares se recusam a assinar. A população cobra posicionamento.
O que está em jogo
A CPI, caso instaurada, terá poderes para investigar possíveis irregularidades, má gestão e falhas na aplicação dos recursos públicos destinados à pavimentação e infraestrutura viária de Parauapebas. Além do tapa-buraco, a oposição sinaliza que pretende investigar todo o conjunto de obras de infraestrutura realizadas desde o início do mandato de Aurélio Goiano.
Para a população de Parauapebas, que convive diariamente com ruas esburacadas, acidentes e prejuízos materiais, a pergunta permanece: o que os 12 vereadores que se recusam a assinar a CPI estão querendo esconder?
Por Ana Reis Notícias | anareisnoticias.com.br
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